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Matias Spektor

 

O grito de Angela Merkel contra a espionagem norte-americana abriu a caixa de Pandora em Washington, alimentando uma crise cujo desfecho é imprevisível. A fúria dela ainda movimentou as águas na ONU, de onde poderá sair uma resolução ao gosto do Planalto. Note-se, contudo, o detalhe da reação alemã. Merkel foi dura com Obama, mas não impôs condições para o diálogo. Quando políticos aliados pediram que ela cancelasse negociações comerciais com os EUA, deram com os burros n'água. Merkel gostaria de pedido de desculpas e busca concessões da Casa Branca, mas deixa a porta aberta para o acordo.

Hélio Schwartsman pergunta o que ganha a sociedade brasileira quando o país ocupa um assento no Conselho de Segurança da ONU (folha.com/no1360590). A indagação é excelente. Segundo ele, não haveria ali vantagens materiais para a população, só novos gastos e encrencas desnecessárias. 

Esse raciocínio, acredito, precisa de ajustes. 

Passagens pelo Conselho têm impacto econômico positivo, como revelam os estudos empíricos dedicados ao tema. Elas também ajudam a modernizar e profissionalizar as Forças Armadas, que tendem a participar de mais operações de paz. 

Além disso, como o Conselho define as regras de conduta às quais o Brasil se submete, é vantajoso para o país ter voz e voto na hora de defini-las.

Mas seria um equívoco definir a participação em termos de custo-benefício, pois a natureza de muito do que está em jogo é intangível. 

O Conselho de Segurança limita a capacidade de grandes potências fazerem o que bem entendem, tornando-se foro útil para países que não podem ou não querem expressar suas preferências à força. 

Por ser um clube restrito, o Conselho também aufere ganhos de posição aos países que lá operam, dotando-os de influência, moeda valiosa para avançar seus interesses. 

O governo de um país no Conselho vê-se forçado a tomar posição em temas politicamente delicados. No processo, a sociedade informa-se, debate e participa das coisas do mundo. Também define e adapta seus valores. 

O governo que participa do Conselho também se expõe a críticas dentro e fora das fronteiras, revisando as suas crenças e reajustando as suas ideias. 

É claro que a sociedade brasileira pode viver bem sem Conselho. Mas é uma ilusão acreditar que, ficando de fora, o isolamento será esplêndido, pois a política internacional desafia interesses e valores básicos da sociedade brasileira todo dia. 

Ficar longe tampouco livrará nossa diplomacia de fazer escolhas morais difíceis: com dez vizinhos contíguos, uma economia dependente de fluxos globais e 200 milhões de cidadãos que demandam direitos em um mundo interligado, elas são inescapáveis. 

Esse debate quase não figura nas preocupações dos poderes que nos governam, dos acadêmicos que nos educam e dos intelectuais que nos provocam. A falta de discussão nos empobrece --estando no Conselho ou não.


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